sexta-feira, 19 de julho de 2019

Reunião Virada Sustentável 2019



Uma importante oportunidade de articular cultura e sustentabilidade na nossa região!
Imperdível. Compareçam!

terça-feira, 2 de julho de 2019

As origens da Fazenda de Santa Cruz

A formação da Fazenda de Santa Cruz foi um dos resultados da violenta derrota de franceses e tamoios que aqui estavam e do cálculo sagaz dos padres jesuítas que, através da ascendência moral-religiosa sobre a população local souberam habilmente ampliar seu patrimônio. Na verdade, os padres jesuítas, a despeito das justificativas religiosas de suas ações, tinham um comportamento bastante terreno no que dizia respeito à acumulação de poder e bens materiais. O resultado foi se tornarem senhores coloniais de uma extensão considerável do território regional, e com um poder local que era sem precedentes.

Confira no texto da professora Manoela da Silva Pedroza.


As origens da Fazenda de Santa Cruz

Manoela da Silva Pedroza

A origem dos domínios  que  mais  tarde  formariam  a  Fazenda  de  Santa  Cruz remontava  a  uma  sesmaria  dentre  outras  concedidas  a  Cristóvão  Monteiro,  em  1566. Fidalgo da Casa Real, ele veio cedo para o Brasil acompanhando a nau de Martim Afonso de Souza. Exerceu vários cargos de confiança na Vila de Santos, na década de 1550. Casado com filha de capitão vicentino, Monteiro fez parte do seleto grupo que veio de Santos para fazer guerra contra franceses e tamoios. Chegou à Guanabara trazendo um filho seu e muita gente à sua custa, escravos e índios para participar da tomada do forte Coligny. Lutou e permaneceu ao lado de Estácio de Sá na cidade velha.
 
Vitorioso em 1565, Monteiro passou a fazer parte do grupo a que chamamos de“conquistadores”. Este grupo conseguiu amealhar os primeiros cargos, mercês e sesmarias  no Rio de  Janeiro.  Em  1565,  Monteiro  recebeu  terras  em  Piratininga,  nas  bandas  da Carioca, no Rio Iguaçu e nos sertões da Gávea. Mas, em 1567, queixou-se ao capitão de São  Vicente  que  não  tinha  onde  fundar  uma  fazenda  para  sustentação  de  sua  família, recebendo desta vez mais terras na região de Sepetiba, que iam da aldeia de Sapeagoera até Guaratiba, com um rio no meio chamado Guandu, que formariam a futura Fazenda de Santa Cruz. Segundo Benedicto Freitas, ele foi um dos mais aquinhoados dos 750 portugueses do Rio de Janeiro, em 1587, e pode ser considerado o fundador de uma das linhagens da nobreza da terra carioca.  Monteiro,  em  1568,  foi  colocado  no  cargo  de  primeiro ouvidor do Rio de Janeiro e, entre 1568 e 1572, foi vereador da cidade. Tratava-se da maneira  corriqueira  através  da  qual  a  Coroa  Portuguesa  delegava  a  particulares  a execução de serviços, da guerra e das tarefas de colonização.

Vencidos os  índios,  Monteiro  se  estabeleceu  nas  terras  recebidas  na  Baía  de Sepetiba. Assumiu domínio e posse das terras que lhe foram concedidas por lá, construiu o primeiro engenho e capela, e lá faleceu. Ao que parece, Monteiro havia deixado clara a vontade de doar parte de suas terras para a Companhia de Jesus. Por isso, em 1589, sua viúva doou  sua  parte  da  sesmaria  para  a  Companhia.  Tratou-sede  um  legado  pio, semelhante à uma capela, visto que instituiu a obrigação de encomendar a alma do casal. Esse tipo de doação, motivada por temores de sofrimentos após a morte, constituíram a maior fonte  do  patrimônio  da  Companhia  e  mostram  sua  ascendência  moral  diante  da sociedade local e suas prerrogativas no que tangia à salvação das almas mediante legados imóveis.  Segundo Benedicto  Freitas,  os  jesuítas  possuíam  métodos  específicos  para dispor dos bens de viúvas ricas, e assim o fizeram.

Em 8 de dezembro de 1589, a filha de Cristóvão Monteiro, Catarina, e seu marido, José Adorno, fizeram uma “troca” da parte que lhes cabia na outra parte da vasta sesmaria herdada  do  pai,  em  Sepetiba,  por  um  pequeno  terreno  que  a  Companhia  possuía  em Bertioga. Adorno, de origem fidalga, genovês, também fez parte do grupo vicentino de combatentes no forte Coligny e da carnificina no forte de Cabo Frio. Segundo Benedicto Freitas, ele era muito desprendido de bens materiais, um benfeitor de ordens religiosas, construtor de templos e filantropo. Possuía um tio  jesuíta  e  outro  casado  com  uma  filha  de  Caramuru,  servindo  inclusive  como intérprete da língua nativa para o padre Anchieta, Adorno tinha proximidade com os dois lados  da  moeda  colonial,  e  suas  ações  mostram  como  a  violência  e  o  extermínio conviviam bem com o espírito ultrarreligioso da época.

Também no campo da mentalidade, José Adorno transitava pela glorificação do divino em atividades bem materiais. Já viúvo, estava propenso a ingressar na Companhia de Jesus. Segundo Edgard  Leite  Ferreira  Neto,  a  forte  ascendência  espiritual  da Companhia, evidente na sociedade colonial, dotou-a de diversos mecanismos privados de financiamento. Foram inúmeras as doações particulares para a Companhia, consistindo estas nos principais meios de enriquecimento patrimonial dos jesuítas. Elas atestam, com efeito, além  da  existência  de  expressivas  relações  de  poder  entre  a  Companhia  e  os segmentos  sociais  importantes  da  colônia,  uma  liderança  espiritual  muito  forte  entre fazendeiros  e  outros  poderosos.  Em nosso  ver,  esses  elementos  também  indicam  os liames  familiares  e  afetivos  que  uniam  os  padres  à  nobreza  e  fidalguia  portuguesas, possibilitando uma ainda maior afinidade de métodos e trocas – materiais – entre eles.
 
Célere, em  fevereiro  de  1590,  apenas  sessenta  dias  após  a  doação  do  casal,  a Companhia  de  Jesus  tomou  posse  da  totalidade  da  sesmaria  concedida  a  Cristóvão Monteiro. Os padres iniciaram prontamente o trabalho de medição e demarcação da área, que durou até 1613. Neste ano já haviam instalado um curral e denominado a fazenda de “Santa Cruz”. Importa aqui notar a rapidez com que os padres agiram na confirmação das sesmarias, demarcação e medição, inéditos naqueles tempos.

Nos anos seguintes, os jesuítas adquiriram mais partes de sesmarias limítrofes a de Santa Cruz. Faziam compras em dinheiro, o que demonstra sua disposição para ampliar patrimônios  também  através  do  precoce  mercado  de  sesmarias  da  época.  Foram quinhentas braças de testada e meia légua de sertão de terras compradas aos herdeiros de Manoel Veloso Espinha, em 1616, por sessenta mil réis. As que lhe foram concedidas tinham duas  léguas  de  costa,  na  restinga de  Marambaia,  e  três léguas  para  o  sertão  de  Guaratiba, e foram legadas aos seus filhos, Manoel Veloso Espinha e Jeronymo Veloso Cubas, que as venderam aos padres.

Em1645,  os  jesuítas  trocaram  com  o  governador  terras  referentes  à  aldeia  de Itinga,  atual  cidade  de  Itaguaí,  o  que  possibilitou  que  ‘arredondassem’  a  testada  da Fazenda  de  Santa  Cruz  para  leste  do  Rio  Itinguaçu,  onde  colocaram  seu  primeiro marco. Finalmente, em 1654 e 1656, adquiriram de Tomé Correia de Alvarenga e seu genro e  primo,  Francisco  Frazão,  uma  sesmaria  ainda  maior  do  que  a  de  Cristóvão Monteiro,  pagando  o  procurador  do  Colégio  quatrocentos  mil  cruzados  ao  primeiro  e seiscentos mil ao segundo. A gleba havia sido legada por Manoel Correa, pai de Tomé, por sua  vez  genro  de  Tomé  de  Alvarenga,  o  velho,  primeiro  conquistador,  a  quem  se concedeu  a  sesmaria.  Segundo o  padre,  lá  já  teria  havido  “cem  currais,  que  se despovoaram  por  medo  dos  negros  fugidos”.  Esta possuía  seis  léguas  em  quadra,  em continuidade com a sesmaria de Cristóvão Monteiro, e se estendia para além dos altos da Serra do Mar (até o atual município de Vassouras). Portanto, o domínio de Santa Cruz totalizava, em meados do XVII, dez léguas em quadra.

Não era desconhecido dos padres o potencial fluvial-marítimo da Fazenda. Esta possuía abundantes quedas d’água, rios volumosos e navegáveis, e uma extensa testada para o oceano, contando com excelente porto natural. Neste ínterim, é preciso reforçar o “planejamento estratégico” dos jesuítas, de padrão completamente diverso dos outros colonizadores, e a forma com que inseriam a Fazenda de Santa Cruz numa geopolítica dos caminhos e rotas daqueles tempos. Segundo Márcia Amantino, os jesuítas teriam se interessado por aquelas terras por sua localização estratégica (meio do caminho para SãoVicente e também da rota da prata vinda de Buenos Aires). Segundo o mapa produzido por Adriano Novaes, pela Fazenda de Santa Cruz passava, de leste a oeste, o Caminho para São  Paulo  e,  de  Sul  a  Norte,  o  caminho  de  São  João  Marcos,  o  que  pode  ser visualizado pelo mapa da figura 1. É importante notar também que a Fazenda era costeada a oeste pelo Caminho Velho (criado em 1695) e a leste pelo Caminho Novo para as Minas (criado em 1707), o que pode ser mais bem apreendido pelo mapa da Estrada Real, na figura 1.

 
Figura 1 – Limites aproximados da Fazenda de Santa Cruz em relação ao traçado dos Caminhos Velho e Novo.

Bibliografia:

Ferreira Neto, Edgard Leite. Notórios rebeldes: A expulsão da Companhia de Jesus da América portuguesa. In: Andrès-Gallego, José (org.) Tres Grandes Questiones de la Historia de Iberoamérica. vol. 1. 2a edição. Madrid: Fundación Ignacio Larramendi, 2005.
Freitas, Benedicto. Santa Cruz: fazenda jesuítica, real, imperial, vol. I: Era Jesuítica (1567-1759). Rio de Janeiro: Edições do Autor, 1985.
Leite, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Tomo II (século XVI - O Estabelecimento). Coleção Reconquista do Brasil. vol. 202. Belo Horizonte / Rio de Janeiro: Editora Itatiaia, 2000.
Pedroza, Manoela. Capítulos para uma história social da propriedade da terra na América Portuguesa e Brasil. O caso dos aforamentos na Fazenda de Santa Cruz (Capitania do Rio de Janeiro, 1600-1870). (Tese de Doutorado). Niterói: PPGH - UFF, 2018. (663 páginas). Disponível em: < http://www.historia.uff.br/stricto/td/1970.pdf >.

Sobre a autora:
Manoela da Silva Pedroza é Historiadora. É Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense e autora da Tese “Capítulos para uma história social da propriedade da terra na América Portuguesa. O caso dos aforamentos na Fazenda de Santa Cruz (Capitania do Rio de Janeiro, 1600-1870)”, defendida no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFF em 2018.

domingo, 30 de junho de 2019

Ponte dos Jesuítas



Capítulo sobre a Ponte dos Jesuítas, que está no livro Fragmentos do Rio Antigo, André Luís Mansur Baptista e Ronaldo Morais, páginas 20, 21, 22 e 23. As fotos foram tiradas por Ronaldo Morais em 1984.

A PONTE DOS JESUÍTAS

Construída em 1752, a Ponte dos Jesuítas é um dos mais importantes e bem preservados símbolos da arquitetura colonial do Rio de Janeiro. Também conhecida como Ponte do Guandu, ela não é uma ponte comum, e sim uma ponte-comporta, já que através dos seus arcos era usada para regular a passagem das águas do Rio Guandu, que hoje não passam mais por ali, e também desviá-las para o Rio Itaguaí através de um canal artificial. Com 50 metros de extensão e seis de largura, ela também servia como passagem dos tropeiros que circulavam pelo chamado "sertão carioca", levando mantimentos e outros produtos pelas muitas fazendas da região.

Seu piso é formado por sólidas lajes, no calçamento conhecido como pé de moleque, muito usado em Paraty e o terror dos saltos altos das mulheres. Os quatro arcos, revestidos internamente com pedra, eram chamados de "óculos", e os padres, por meio de comportas de madeira, faziam a regulagem das águas para evitar enchentes que destruíam as plantações, matavam o rebanho e inundavam as casas. Feita de cantaria e construída na administração do padre Pedro Fernandes, grande empreendedor da fazenda, a ponte é ornamentada por oito colunas de granito com capitéis (parte superior de uma coluna ou pilastra) em forma de pinhas portuguesas. Na parte central, entre belas esculturas barrocas, há um bloco em mármore lioz, onde se vê um brasão com o símbolo da Companhia de Jesus (IHS) e a data de 1752, além da seguinte inscrição em latim, com a respectiva tradução:

Flecte genu, tanto sub nomine, flecte viator
Hic etiam reflua flectitur amnis agua

Dobra o joelho sob tão grande nome, viajante
Aqui também se dobra o rio em água refluente

A ponte fez parte do amplo trabalho dos jesuítas de controle das águas, drenagem e irrigação da ampla área da Fazenda de Santa Cruz, repleta de pântanos e terrenos alagadiços em geral, sempre sujeitos a inundações. Dois padres foram mandados para estudar na Holanda, que enfrentava os mesmos problemas, para aprender os procedimentos corretos. Foram feitos mapas hidrográficos por toda a região, e os vales, morros e elevações em geral, foram estudados. Os jesuítas concluíram que os leitos dos rios deveriam ser contidos nos pontos de inundação, com as pontes-comportas, aberturas de valas e canais para o escoamento das águas, solucionando o problema de enchentes e secas e tornando a Fazenda de Santa Cruz uma das mais produtivas do Brasil.

Com a canalização do Guandu, cujas águas abastecem a população da cidade, a ponte perdeu sua função original, mantendo, no entanto, a importância histórica e arquitetônica, tanto que seu tombamento foi um dos primeiros do país, em 1938, quando o governo de Getúlio Vargas criou a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, hoje o mais importante Instituto de Preservação do Patrimônio, mais conhecido como Iphan. Infelizmente, a ponte sofreu degradação de pessoas que quiseram tirar partes de sua estrutura para algum tipo de obra, inclusive com a derrubada de duas colunas, mas os constantes trabalhos de recuperação e a conscientização da população local estão dando a este importante monumento da cidade o seu real valor. A Ponte dos Jesuítas fica na Estrada do Curtume, em Santa Cruz, ao lado da Ponte Lindolfo Collor .

Texto de André Luís Mansur Baptista
Fotos de Ronaldo de Morais

Editado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Uma pequena homenagem aos visitantes no plantão de hoje


Hoje em nosso plantão no NOPH recebemos a visita do escritor e amigo André Mansur, que elogiou a atuação da nova coordenação pela ativa publicação dos eventos em rede. 

André Mansur visitou a exposição Revisitando os Campos de Concentração ficando bastante impressionado com o realismo da mesma.

Na oportunidade deixou a seguinte mensagem na árvore da esperança: O ódio é uma das doenças da história. Ao final enviou parabéns a todos e todas prometendo retornar mais vezes.
 






















Outro registro de grande importância no plantão de hoje foi a visita do nosso coordenador professor José Renato que visitou com seus alunos a exposição e também todo o prédio do Palacete Princesa Isabel.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

O dia a dia dos escravos na antiga Fazenda de Santa Cruz

Carlos Engemman

Imagem 1: Vista do Castelo Imperial de Santa Cruz, J. B. Debret (1816-1820)
Nenhum dos viajantes que se hospedou na Fazenda de Santa Cruz deixou um relato que nos contasse como os escravos se ajeitavam nos seus afazeres diários. Mesmo assim, as várias fontes consultadas acabaram nos dando uma ideia, ainda que com as distorções costumeiras, do possível cotidiano destes homens e mulheres unidos pelos seus laços sociais e pelas correntes do cativeiro. 

Talvez um viajante que visitasse Santa Cruz preocupado em retratar a vida dos escravos visse algumas coisas interessantes, as quais bem poderíamos ler em algum relato perdido. Ainda que nos parecesse um tanto exagerado, como exagerados pareceram alguns elementos das fontes que ainda assim mencionaremos a seguir, o exagero não seria inocente, quem sabe fosse a expressão do pasmo ou até da confusão do autor frente ao que via, mas não entendia. Quiçá fosse alguém que estivesse apenas de passagem, para um pouso numa jornada maior.

Um tal viajante hipotético certamente se encantaria com o cenário que se descortinaria diante de seus olhos após a curva do alto do Morro dos Chinas. Morro que recebeu esse nome pela presença, desde o início do século XIX, de uma colônia de chineses, usados como experiência do uso de mão-de-obra oriental na substituição dos cativos. 


Ao iniciar a descida, o imaginário viajante se depararia com uma enorme baixada, compondo um vasto campo limitado ao longe por um par de montanhas. Boa parte destas terras era destinada ao pasto dos diversos gados, mas em vários pontos dessa paisagem seria possível ver cercados de terra com algum cultivo. 

Se fosse um dia santificado, como o domingo ou outra data com preceito de guarda pela fé católica, os escravos estariam trabalhando nestes cercados, cuja posse lhe fora concedida.

No meio da baixada, o maior sinal da presença humana, um pequeno povoado, organizado à moda dos antigos aldeamentos jesuítas. Ao fundo, dominando todo o cenário, ladeada pela torre do campanário, a imponente igreja dotada de uma maciça porta central com três vitrais equidistantes por sobre ela, conforme o sólido estilo arquitetônico jesuítico. Ao seu lado o que já fora o convento dos jesuítas, agora, desde 1808, transformado em palácio, residência de verão para a Família Real. À frente deste conjunto, dois bairros de senzalas emoldurando o terreiro central. À direita, o bairro de Pacotiba e a esquerda o bairro Limeira. Do alto da serra, certamente poderia ser ouvido o murmúrio, ainda que distante, do borbulhar da vida na fazenda.

Ao descer pela estrada sinuosa, o viajante começaria, paulatinamente, a distinguir os sons que de lá emanavam. Ao fundo o murmúrio constante dos canais de drenagem dos pastos, construídos sob a égide de Santo Inácio e mantidos abertos pelos mais zelosos dos seus administradores. Sobrepondo-se a esse, provavelmente seria ouvido o conjunto de vozes, algo indefinido, da escravaria da fazenda. Algumas vozes femininas, em cantorias a embalar o seu serviço, outras infantis, na festiva comemoração da vida, típica da tenra idade.

Imagem 2: Foto Escravos trabalhando na Fazenda Quititi, no Rio de Janeiro, 1865 (Georges Leuzinger/Acervo Instituto Moreira Salles). 
Aproximando-se pelo terreiro, o coche de nosso possível viajante se tornaria alvo de olhares, um tanto curiosos, mas já habituados ao movimento de chegada frequente de visitantes. Quiçá a indagação fosse apenas: quem será dessa vez? Ou algo assim. Se fosse numa tarde de sexta-feira, haveria um grande número de cativos por lá, evitando o trabalho da fazenda e preparando-se para outras atividades, como o trabalho na sua própria exploração agrícola ou a folga do fim de semana. Se fosse uma segunda-feira pela manhã, igualmente estariam lá os tantos cativos, relutando às imprecações dos feitores, que os empurravam para o trabalho. Suponhamos que se tratava de uma sexta-feira, digamos, pela manhã.

Certamente os responsáveis pela administração estariam de prontidão a receber o novo hóspede, trocar alguma conversa e conduzi-lo para o almoço. À tarde, após um bom descanso, numa espécie de passeio guiado pelos arredores imediatos do Palácio, estarrecido, o ilustre visitante constataria que a fazenda estava dotada de grande autonomia. Ao passar pelas oficinas poderia ver os vários mestres - carpinteiros, ferreiros, falquejadores - e seus aprendizes encerrando morosamente suas atividades. 

Assim também, poderia conhecer os teares, local de trabalho de aproximadamente 40 mulheres coordenadas por um mestre tecelão, onde eram produzidos os tecidos que vestiam a escravaria de Santa Cruz nos seus mais corriqueiros dias. A botica causaria estranheza ao hipotético estrangeiro, já que ela também era controlada por um escravo que, até por força do ofício, era alfabetizado, lendo e escrevendo com precária desenvoltura, mas ainda assim, fazendo-o.

E este não era um apanágio do boticário de Santa Cruz, lá havia uma escola de rudimentos para os meninos que lá aprendiam as primeiras letras até os sete anos, período no qual eram também alimentados pela cozinha das crianças. Provavelmente, o abrigo fornecido pela fazenda aos infantes menores de sete anos constituía-se num meio para liberar as suas mães, que em certas épocas compunham a maior parte das esquadras móveis, responsáveis pelos trabalhos da fazenda.

Talvez este desequilíbrio sexual fosse percebido pelo nosso hipotético observador. Podemos imaginá-lo comparando a paisagem humana desta fazenda com as demais observadas ao longo de visitas em outras propriedades. Suas retinas, habituadas ao predomínio masculino na população escrava poderiam estranhar a frequência feminina neste grupo. Provavelmente suporia estar em um criadouro de escravos, como alguns néscios ainda hoje o fazem. Arriscado seria supor a resposta do administrador, caso fosse indagado sobre o destino dos homens do lugar. Corramos o risco de vislumbrá
-lo chutando um pouco de poeira do chão, com as mãos no bolso e levantando o rosto a comentar sobre a ida de homens a reparar o aqueduto da Lapa ou para obras no Rio de Janeiro, talvez alguns tenham obtido a sua liberdade e outros tenham fugido, mas no geral estão eles trabalhando em outras obras de El Rey de Portugal, afinal são escravos do rei.

Se o estrangeiro ousasse vagar entre as casas da vila dos escravos, é possível que se deparasse com algumas construções de parede sólida com várias portas, tantas quantas eram as moradias obtidas de sua subdivisão. A julgar pelo que captou Debret, essas construções eram providas de janelas, algo que talvez diferisse de outras possíveis observações anteriores. Quanto a seus habitantes, a esses podemos imaginar que as impressões não seriam muito diferentes das que já nos foram dadas, tanto pelo escrivão dos autos do sequestro dos bens, por ocasião da expulsão dos jesuítas, quanto pelo deputado Rafael de Carvalho, quase 100 anos depois: os acharia “uma gente muito preta e muito feia”.

Imagem 3: Negra com o filho, Salvador, em 1884 (Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

Mas a tarde já declina, aproxima-se a hora da Ave-Maria, e mesmo que fosse de um país protestante, ao menos pela curiosidade, podemos tomar o nosso hipotético visitante e conduzi-lo até a igreja para os ofícios religiosos que ali teriam lugar. 

Às seis da tarde, aproximadamente, tem início a oração do "Angelus". Hoje - imaginemos - ainda mais solene por ser o Tríduo da festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira de uma das três irmandades dos cativos, a saber: a do Rosário, a das Almas e a do Santíssimo Sacramento.

Os confrades do Rosário entrariam pomposamente pela nave repleta dos negros de Santa Cruz, obviamente todos bem vestidos e paramentados. Os reis da irmandade se dirigiriam para o fundo onde se sentariam nas cadeiras que ladeavam o altar. Viriam, logo a seguir, outros membros eminentes que tomariam lugar na nave principal, próximos à grade que a separava do altar. Certamente estes lugares já estariam separados nesta ocasião. Por último viria o sacerdote que, vendo as duas filas de escravos que seguiam paralelas a sua frente se separarem, chegaria ao altar. Após cumprimentá-lo se dirigiria à congregação, quem sabe até repleta. 

Seria ingenuidade supor que todos os presentes estivessem ensimesmados em orações fervorosas. Boa parte dos fieis estaria, certamente, comentando os detalhes das vestes das rainhas ou, talvez, calculando quanto gastariam para a próxima festividade. Outro grupo possivelmente estaria comentando sobre negócios, algumas compras e vendas poderiam ter lugar no eco do "Dominus te cum" proferido pelo sacerdote e seguido pelos murmúrios dos seus negros fiéis.

Ao final de tudo, a festa prosseguiria na vila dos escravos mas isso não era para os estrangeiros olhos de nosso suposto viajante. Para ele um jantar, um tanto enfadonho, onde o principal assunto à baila talvez fosse as virtudes econômicas e o potencial produtivo da fazenda. Conversa esta que se estenderia ainda pela roda de licores, entretenimento um tanto moroso até a hora de retirar-se. 

Ao recolher-se, o imaginário estrangeiro certamente ainda ouviria os cantos e as celebrações dos cativos diante de suas casas, cantando e dançando aproveitando a sua cota de diversão, numa vida não de todo carente de dores e infortúnio. Ali, no íntimo do seu aposento, ele teria a oportunidade e a privacidade necessária para por seu diário de viagem em dia, anotando as impressões tomadas durante o dia. Quiçá a altas horas da noite, entre o sono e a vigília, ainda fosse embalado nos cantos da tal gente, que ele julgava "preta e feia", de Santa Cruz. 

O sábado começa cedo. Neste dia o trabalho era realizado para os próprios cativos, em suas terras, com seus rebanhos e nas mais atividades que pudessem lhe render algum lucro. Isso posto, podemos imaginar que havia alguma circulação monetária entre os negros e, provavelmente, algum acúmulo pecuniário.  

Ainda pela manhã, de acordo com o interesse de nosso hipotético visitante, ele poderia tomar conhecimento de que algumas escravas foram para a Corte. Seria uma fuga? Não, lhe tranquilizaria um dos funcionários, as fugas ocorriam, mas eram chamadas de deserções e só eram assim consideradas após seis meses de ausência do dito escravo. Então, afinal, que negócios poderiam ter as negras de Santa Cruz na Corte? Foram buscar seus vestidos, mandados fazer nas lojas da rua da Alfândega, com as francesas que costuram para a alta sociedade. Amanhã seria o ponto alto da festa da Senhora do Rosário, uma grande oportunidade para a visibilidade social. 

O que poderia chocar o nosso hipotético observador seria o putativo desperdício de dinheiro, de recursos. Muito mais para um povo cativo, maior proveito - talvez fosse esse o juízo a ser feito - teriam se acumulassem até a última dracma para a alforria e, posteriormente, para algo lhes proporcionasse uma prosperidade material segura, algum investimento. Nota-se que, se existisse, tal viajante seria um ignorante no que tange a alma luso-brasileira.


Imagem 4: Escravos na colheita do café, Rio de Janeiro, 1882 (Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

A parte da tarde do sábado poderia reservar pelo menos uma surpresa para um provável forasteiro. Em meio ao agito da vida vespertina, entre trabalhos próprios, possíveis negócios e preparativos para as festividades próximas, um som se destacaria. Uma buzina rasgaria o burburinho da tarde. E percorrendo as ruas e vielas da vila dos escravos, munido de um carrinho, um peixeiro. Isso porque alguns escravos iam a Sepetiba ou a Guaratiba pela manhã, compravam peixes e depois circulava por entre as ruas da cidadela dos cativos a anunciar o seu produto com a dita buzina. Certamente o regateio se fazia presente a cada requisição de sua presença e ao final de alguns minutos de negociação acertava-se o valor a ser pago pela quantidade desejada.
Novamente às seis da tarde repetia-se o ritual da véspera com a mesma pompa. E depois o mesmo enfado dos jantares, quase intermináveis, onde se alongavam e repetiam os termos da prosperidade da Real Fazenda de Santa Cruz, em grande parte atribuídos ao empenho e competência daquele que as narrava. 

Uma vez livre do ritual dos licores, nosso viajante hipotético poderia se entregar às suas anotações, onde certamente figurariam o complexo sistema de parentesco desenvolvido pelos escravos. Também seria alvo dessas observações o zelo com que estes cuidavam de suas terras e de suas casas, a ponto de disputarem entre si por fronteiras de roças. Nestas situações o administrador funcionaria como árbitro dos litígios.
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Com o alvorecer do domingo, anunciado pelas longas batidas dos pesados sinos do campanário, teria início a solene festa de Nossa Senhora do Rosário. Ao chegar na praça entre as  senzalas, o nosso fictício estrangeiro provavelmente já se depararia com uma pequena multidão. Um grande alvoroço precederia as pouco frutíferas tentativas dos mais velhos em por ordem na procissão que atravessaria toda a extensão do terreno central, entrando na igreja com seus estandartes e paramentos. Ao meio, toda ornada com flores, a estátua de Nossa Senhora do Rosário, uma bela peça de madeira pertencente aos próprios escravos. 

À entrada da nave principal, uma benção especial para os cativos da Irmandade que conduziriam boa parte do transcorrer litúrgico, entoando desde o  Kirie Eleison inicial até as prolixas ladainhas ao final da celebração.
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A festa que se seguiria traria uma rara oportunidade para que o estrangeiro se aproximasse um pouco mais dos cativos e, quiçá tivesse a oportunidade de conversar com um ou outro. Das muitas coisas que, digamos, Mathias Xavier, um escravo nascido em 1741, poderia contar-lhe, uma certamente viria à memória do velho escravo. Foi antes da Família Real chegar, mas bem depois dos padres serem mandados embora, e sabia disso porque ainda era menino quando os padres se foram. Talvez já se fossem passados uns 20 anos do acontecido. Isso mesmo. Foi um ano depois de um companheiro seu ser assassinado com uma facada certeira no coração por um “escravo mau”. O motivo do crime não se lembrava bem, mas deveria ser ou mulher, ou dinheiro, ou terras. Três coisas que levam um homem a perdição.


Imagem 5: Quitandeiras em rua do Rio de Janeiro, 1875 (Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

O fato é que vieram para Santa Cruz dois escravos fugidos do Rio de Janeiro. Ao que se lembra Mathias, um dos ditos escravos havia roubado uma grande quantidade de ouro de seu senhor. Este deveria ser ourives, já que algumas peças vieram soltas, como fivelas e botões. Mathias talvez lembrasse de ter visto uma fivela ou alguns botões desligados de seus usos normais. Pois bem, os dois vieram do Rio de Janeiro e se instalaram nas proximidades, comprando o abrigo e a comida com o ouro roubado. Após muita confusão, o administrador chamou alguns escravos mais velhos, dizendo que já sabia do acontecido, visto que chegaram cartas da cidade e que o melhor a fazer era entregar os dois sujeitos para não macular a reputação dos escravos da fazenda. É claro que outras ameaças também devem ter sido usadas. Talvez a mais temível, o degredo. Caso os ladrões não fossem entregues é provável que diligências acontecessem e os envolvidos seriam vendidos, pelo melhor preço, para algum serviço indesejável, como a produção de cal no Continente do Rio Grande de São Pedro, onde foi localizado um cativo sendo oferecido ao quem pagasse melhor.
Antes de partir, talvez o hipotético viajante tivesse algumas ideias interessantes a respeito dos escravos e da vida na Fazenda de Santa Cruz. Se fosse perspicaz, já teria avaliado que a vida do lugar se constituía em função de uma memória: a memória dos jesuítas. Porém, como toda memória, esta era um bem simbólico a ser negociado pelos diversos agentes sociais deste microcosmo. Para os que queriam desmembrar e vender a propriedade, essa era a memória do inatingível, que torna inviável a retomada das atividades lucrativas. Para os administradores como o Coronel Manuel Martins do Couto Reis, era a memória do almejado, daquilo deveria ser implementado o quanto antes. Para os escravos era a memória de um tratamento bem negociado. 

Para estes últimos, o valor da marca jesuítica era muito mais eficaz quando acreditado pelos seus senhores. É possível que a manutenção de certos comportamentos tenha ocorrido, dentre outros fatores, pelo ganho que a imagem de "povo jesuítico" poderia produzir.

Assim, a identidade de “servos de Santo Inácio a serviço do Imperador” lhes facultava um relacionamento permeado pela memória que os administradores construíram acerca do “modo jesuíta de produção”. Ser devoto, ser fiel a algumas tradições jesuíticas era, então, manter abrasada a crença dos seus feitores na eficácia do método pretensamente herdado dos jesuítas. Acontece que para os cativos o novo relacionamento deveria ser muito mais proveitoso do que com os “veneráveis” antigos senhores de Santo Inácio. 

Cabe perguntar: como os cativos pareciam - aos olhos dos agentes reais e imperiais - tão saudosos e fieis à memória dos tempos da Cia. de Jesus? Esse comportamento possivelmente foi forjado no lidar com os administradores, crentes no poder do método jesuítico. Na medida em que a evocação dessa memória era capaz de amortecer parte dos conflitos inerentes à vida na fazenda, ela foi se plastificando numa identidade relativamente sólida, que distinguia os “Servos de Santo Inácio” dos demais escravos, passíveis de punições mais rígidas e a quem se concedia poucos privilégios. Escravos que eram mais rebeldes, ainda que os de Santa Cruz fossem, ao que tudo indica, apenas imaginariamente mais dóceis.

Imagem 6: Lavagem do ouro, Minas Gerais, 1880 (Foto: Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

Assim também seria possível perceber que a tensão estabelecida entre a escravaria e os jesuítas provavelmente foi amortecida pela concessão de benesse aos cativos. Mas, ainda assim, a tensão existia, quiçá sob a sombra do degredo. Ser vendido, retirado de uma propriedade onde a vida era menos sofrida que nos casos mais gerais, não seria punição das menores. Além do que, dentre os edifícios que circundavam o convento, havia uma cadeia, cumprindo seu papel repressor. 
Com o advento da administração real, o descontrole e o desmando parecem ter grassado nos campos da fazenda. Descontrole este, que pode ter gerado uma paulatina autonomia para a vida escrava, não obstante os deslocamentos que retiraram uma parte da mão-de-obra da fazenda.

Algum tempo depois, chegou à fazenda o Coronel Manuel Martins do Couto Reis, um administrador que apostou na viabilidade do modelo jesuíta de administração.    Segundo suas próprias memórias sobre a fazenda, o coronel usou alguns elementos herdados dos jesuítas para a lida com os escravos, embora a pregação e a doutrina religiosa desde os primeiros anos de vida, não fizessem parte deste trato. Esse quinhão do legado inaciano pode ter dado ao coronel o relativo controle que desejava
- relativo até pelas dimensões do plantel. Porém aos cativos, a ausência desta pregação facultou uma maior independência moral frente à fé católica.

Possivelmente, após alguns anos corridos desde a expulsão dos inacianos, os cativos forjaram uma vida cultural cada vez menos permeada pelos hábitos instaurado pelos padres. O controle real era para o labor, pouco interessado numa eventual moralidade dos negros, até por não acreditar que esta fosse possível. Como vimos anteriormente, mesmo os homens mais ilustrados da Corte não distinguiam a vida escrava dos vícios e instintos que maculavam a nação pueril.

De tal modo as  coisas  correriam  que  ao  se  despedir  do  lugar,  o  nosso hipotético estrangeiro sairia  com a sensação de estar abandonando uma comunidade em transformação que se distanciava do padrão moral rígido e supervisionado de perto pelos padres, e adotava um outro diferente, moldado  por escolhas e experiências vivenciadas dentro da própria comunidade, instrumentalizando a memória de uma herança jesuítica. 


O fato de Santa Cruz ser uma fazenda do Estado, a partir de meados do século XVIII, pôs diante dos seus escravos um certo quadro ao qual eles souberam se adaptar com relativa presteza. Apesar das vozes destoantes, como a que vimos em José Bonifácio, a omissão por parte do Estado foi regra no trato com a questão da escravidão. 

Diante de tal ausência, os escritos dos padres jesuítas se transformaram na principal fonte de reflexões sobre a manutenção e o trato com a escravidão. Em terras de abolicionismo tardio, os principais agentes da reflexão e da tentativa de normatização, ainda que por vias morais, eram os padres da Companhia de Jesus.

Santa Cruz teve de ambos um pouco, dos padres primeiro, do Estado depois. Seu microcosmo surge como reflexo do pensamento escravista brasileiro, onde o Estado parece estar à sombra do que diz o clero. Os senhores laicos, dotados de relativa  autonomia perante seus cativos agiam segundo sua própria prática, assim como também deriva dos “costumes” as decisões judiciais. 


Diante deste cenário aparentemente caótico, a escravidão no Brasil se mantém muito mais pelos maleáveis “costumes” do que por qualquer rígido artifício legal. Na fazenda “os costumes”, estabelecidos desde os tempos dos padres, também se transformaram em jurisprudência; direito adquirido e respeitado. Destarte, o regime estatal se mira no eclesiástico tanto pelo sucesso deste quanto pela inépcia daquele no trato com a questão. 

Em função disso, os cativos aproveitavam as heranças dos padres para se impor aos administradores claudicantes. Os maiores aliados que possuíam eram o seu número, assombroso, e a sua fama, tranquilizadora, ambos associados à manutenção do que havia sido estipulado “no tempo dos padres”. 

Só que muita coisa que foi acrescida ou transformada acabou se consolidando politicamente como sido estabelecido “no tempo dos padres”. De tal modo, que o "tempo dos padres” foi dilatado o quanto se pôde. 

Internamente à escravaria, dadas as condições, os relacionamentos foram se tornando cada vez mais complexos, forjando conflitos, alianças, irmandades, fujões, afortunados, enfim toda a diversidade que vimos ao longo deste trabalho. No entanto, os artifícios que utilizavam não eram de todo estranhos aos demais escravos, embora o seu uso fosse, sem dúvida, mais amplo. 


Imagem 7: Escravos na colheita de café, Vale do Paraíba, 1882 (Marc Ferrez/Colección Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).

Ao escrever sobre as famílias de Santa Cruz, Richard Graham afirmava: “Pode-se presumir, pelo que se conhece da vida escrava em geral, que muitos destes casais representavam somente uniões temporárias”.
Com isso, revelou não apenas quão pouco se conhecia da vida escrava naqueles anos, mas como essa perspectiva embotou sua análise. Mesmo diante de um número considerável de viúvos – e a viuvez é, por definição, espelho de uma relação que sobreviveu à morte de um dos cônjuges, que literalmente transcende a própria existência de uma das partes - Graham preferiu acreditar que as relações eram instáveis e voláteis, sem nenhum significado maior.

Diante de tudo o que pudemos ver, percebe-se o quão amplo era esse significado e como ele açambarcava todos os habitantes da “vila dos escravos”.

Sobre o autor: 


Carlos Engemman (in memorian) era Graduado, Mestre e Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi Professor Titular do Instituto Superior de Teologia do Rio de Janeiro e Professor Pesquisador da Universidade Salgado de Oliveira. Tinha experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Colônia, atuando principalmente nos seguintes temas: escravidão, sociabilidade escrava, práticas sociais, escravos do clero e catequese colonial.

Fonte do Texto: Dissertação de Mestrado em História de Carlos Engemman, pp. 121-124. Disponível em: http://livros01.livrosgratis.com.br/cp000118.pdf 
Acesso em 30/05/2019 (adaptado).
10 raras fotos de escravos brasileiros. Disponível em: 
Acesso em 30 de maio de 2019.                               

terça-feira, 21 de maio de 2019

A criação de gado e a construção dos canais na antiga Fazenda de Santa Cruz

Manoela da Silva Pedroza


"Tem-se notícia de gado nos pastos já em 1610. Em 1614 já nasciam, por ano, mil e quinhentas cabeças. Em 1621 já existia o arraial, sede da fazenda. Nestes anos foi preciso secar os chamados “Campos de Guaratiba” e construir os currais. Para tanto, os padres abriram uma vala larga e profunda com quase 14 quilômetros de extensão, para combater enchentes, drenar os campos, servir de bebedouro ao gado e canal para embarcações: a “Vala dos Padres”, mais tarde conhecida como Canal do Itá. Em seguida, construíram o Canal de São Francisco, com dez quilômetros de extensão, a Vala da Goiaba, a Vala do Cação Vermelho e a Vala do Piloto. Outras valas e pequenos canais foram abertos mais tarde. Os padres envolveram os índios aldeados na construção de diques de terra (o mais extenso sendo a “Taipa Grande”, com sete construíram o Canal de São Francisco, com dez quilômetros de extensão, a Vala da Goiaba, a Vala do Cação Vermelho e a Vala do Piloto. Outras valas e pequenos canais foram abertos mais tarde. Os padres envolveram os índios aldeados na construção de diques de terra (o mais extenso sendo a “Taipa Grande”, com sete quilômetros, e depois a “Taipa do Frutuoso”, com mil e seiscentos metros) e um sistema de comportas e óculos, para prevenir o alagamento dos campos na época de cheia dos rios Itaguaí e Guandu ou, nos tempos de enchente, liberarem a água retida. Os padres mandaram fazer também a abertura do ‘caminho dos jesuítas’, ligando a Fazenda à de São Cristóvão, mais tarde chamado ‘caminho das minas’ e, depois, ‘estrada real de Santa Cruz’. Todas estas obras foram executadas pela mão-de-obra indígena aldeada e já estavam concluídas em 1640, criando vastíssimos campos bastante apropriados para a criação de gado e, portanto, sua toponímia passou a “Fazenda dos Corraes”.  

A partir da segunda metade do século XVII, a Fazenda se concentrou na criação de rebanhos e pastos, e no seu aumento, em quantidade e qualidade. Padre Antônio Forte, reitor do colégio do Rio em meados dos seiscentos, era da opinião de que todo o gado que a Companhia criava na capitania do Rio de Janeiro deveria ser concentrado na Fazenda de Santa Cruz, que as outras fazendas deveriam ser vendidas e que o dinheiro deveria ser aplicado na melhoria desta. Assim o fizeram. Construíram valas e taipas, secaram os campos, construíram cerca de trinta currais, implantaram novas forragens, retiraram ervas daninhas (pelas mãos das crianças escravizadas). Os padres tinham sessenta escravos campeiros e mais tantos outros curraleiros, especializados em juntar, proteger, guardar, ferrar, contar e tratar do gado, dispensando inclusive um tosco atendimento veterinário. Essas atividades mostram o empenho dos jesuítas em realmente montarem um enorme e lucrativo complexo criatório nas terras de Santa Cruz, movido pela população escravizada.  

Deu certo. A Fazenda, já em 1641, provinha 41% da renda deste colégio, através da venda do gado. Em 1659, o reitor dizia que “com os juros, os recursos obtidos com o engenho e o curral de Santa Cruz, o aluguel de casas e a renda doada pelo Rei poder-se ia sustentar dois colégios iguais aos do Rio de Janeiro”, indicando a boa lucratividade daquele empreendimento. No final do século XVII, a Fazenda possuía 17.050 cabeças de gado distribuídas em 47 currais, além de 1800 cavalos e alguns carneiros. Isso representava um terço dos rebanhos de toda capitania. Na primeira metade do século XVIII a criação diminuiu um pouco, e se estabilizou. Em 1711, o padre jesuíta Antonil, passando pelo Rio, registrou que a Fazenda tinha quinze mil cabeças de gado, “um quarto do rebanho de toda capitania”, e que era o único lugar da cidade do Rio de Janeiro que possuía currais”. Em 1711, quando o Rio de Janeiro foi invadido pelos franceses, foi estabelecido que os jesuítas de Santa Cruz pagariam duzentos bois e cem caixas de açúcar, a título de resgate da cidade. E assim o fizeram. Em 1731, ela contava com dezoito currais. Quando os jesuítas foram expulsos, em 1759, a fazenda tinha 8.000 cabeças de gado bovino, 1.200 cavalos, 200 carneiros e alguns burros de trabalho.  

Segundo Freitas, só para o consumo da Fazenda se abatiam mil e quinhentas reses por ano. Todo mês eram distribuídas cinquenta e três reses para os pobres da localidade, até os padres franciscanos recebiam sua cota de carne mensal proveniente da Fazenda. Semanalmente era abatida uma rês, que era dividida, salgada e consumida pelos padres e hóspedes da Residência durante a semana. Em três festas por ano, algumas reses eram distribuídas entre os escravos. Mas os números de reses consumidas internamente e os hábitos de consumo alimentar “nobres” dos padres e seus convivas podem nos enganar a respeito das finalidades comerciais da criação de gado. Uma discussão entre os padres ilustra bem que não se esquecia do que era a prioridade. 

Em algum momento da década de 1730, o Reitor do colégio propôs que se fizessem laticínios – queijo e manteiga – com o leite das vacas da Fazenda, para melhor prover os residentes e o colégio, o que iniciaria, portanto, uma atividade paralela na Fazenda. A essa sugestão se opôs veementemente o Padre Pedro Fernandes, administrador à época, alegando que todo o leite deveria ser destinado exclusivamente à alimentação dos novilhos, a fim de que fosse conseguido o grande objetivo da fazenda, que era formar o maior rebanho de gado vacum do continente. A sugestão do Reitor foi abandonada, visto que a venda de gado e carne era, sem dúvida, a maior fonte de renda do Colégio do Rio de Janeiro.  

Era um ponto comum da “economia moral” jesuíta para a gestão de suas fazendas, uma ‘especialização produtiva’ com base em uma avaliação bastante racional das potencialidades de cada sítio (Fazenda de Santa Cruz para criação de gado, Fazenda de Papucaia para produção de farinha de mandioca e fazenda do Colégio para a produção de açúcar). Por isso em Santa Cruz não havia engenhos de açúcar, e sequer se podia desviar o leite dos novilhos para outros fins.  

O gado em pé e a carne verde eram comercializados em circuitos distintos, tanto para o mercado interno quanto para navios estrangeiros, das mais diversas nacionalidades. Para o mercado interno, desde o século XVII o Colégio do Rio mantinha seu próprio açougue, no centro da cidade, que, mesmo ameaçando o monopólio do açougue do Senado da Câmara, garantido pela lei da época, continuou funcionando até a expulsão dos padres. Carne e gado, com autorização expressa do governador, podiam ser vendidos também para as embarcações ancoradas na Ilha Grande. Os jesuítas abasteciam navios vindos do Sul, chamados ‘peruleiros’ que, carregados de prata peruana, paravam no Porto de Sepetiba e faziam compra do gado, efetuando o pagamento em prata. Vendiam para todas as esquadras estrangeiras que lá abarcassem. Fica patente a inserção da produção agropecuária das fazendas jesuítas nos circuitos comerciais mais amplos, num caso típico de quebra de monopólio tanto das rotas quanto dos produtos pelo colonizador português. Assim, os dados sobre a produção agropecuária, seu consumo interno, sua distribuição entre os colégios e sua posterior venda ou remessa para a Europa indicam não somente os princípios da “defesa, a catequese e a subsistência própria”, como alardeavam os padres, mas uma estratégia econômica vigente para toda a Companhia, a busca por lucros e rendas, após saciadas as necessidades de víveres internas da Companhia.  

Segundo dados apresentados por Freitas, a Fazenda rendia trinta mil cruzados anuais (doze contos de réis), que eram entregues ao Reitor do Colégio do Rio de Janeiro todo segundo dia do ano, pelo Administrador, em mãos. O montante era acompanhado de relatório detalhado de sua origem e incluía o rendimento dos arrendamentos e aforamentos de terras e do aluguel de pastos, dados que nos indicam que o rentismo já existia, desde o tempo dos jesuítas, e que também contribuía, efetivamente, para o aumento dos rendimentos da Companhia. Na gestão do Padre Pedro Fernandes, este entregava apenas doze mil cruzados ao Reitor, em compensação, levava in natura o gado que seria consumido pelo Colégio ao longo do ano: quinhentas reses. Presume-se que o dinheiro “das coisas nela vendidas”, sobretudo do gado, era remetido a Lisboa. Com isso, o Colégio do Rio era considerado “o mais desafogado da província do Brasil”, e podia mesmo contribuir para outros colégios e prédios da Companhia. 

O enriquecimento possível através de tamanha estrutura produtiva ficava patente nas obras e benfeitorias deixadas pelos jesuítas, em parte utilitárias, em parte elemento de ostentação da riqueza da própria Ordem, para os que passassem pela Fazenda. Em 1751 a Igreja estava plenamente concluída, com vinte e cinco metros de comprimento do corpo central, com todas as paredes internas cobertas de painéis de azulejos e ricos objetos de culto “todos de ouro, prata e pedras preciosas”. Em 1752, foi inaugurada a “Ponte dos Jesuítas”, em pedra de cantaria, que era de fato uma represa, com quatro óculos por onde passavam as águas do Rio Guandu. No momento de sua expulsão, em 1759, os jesuítas estavam construindo um imenso templo, “destinado a ser o maior do continente”, com cripta anexa para jazigo dos padres. 

A sede da Fazenda era formada por um bloco principal que unia igreja e convento, o “Convento dos Padres”, e outros pequenos prédios, formando um conjunto arquitetônico amplo e organizado, também reformado em meados do século XVIII. No Convento, com dois pavimentos e claustro central, havia trinta e seis celas individuais e ainda uma hospedaria, podendo alojar cerca de cinquenta pessoas. A residência também tinha por finalidade acolher os missionários das aldeias, estudantes, mestres e irmãos graduados em suas férias anuais, para seu “merecido repouso”. Ela também hospedou bispos, governadores e ministros com todo o conforto possível na época."

Manoela da Silva Pedroza é Historiadora.
Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense, autora da tese "Capítulos para uma história social da propriedade da terra na América Portuguesa. O caso dos aforamentos na Fazenda de Santa Cruz (Capitania do Rio de Janeiro, 1600-1870)".

Fonte do Texto: Trechos extraídos da tese "Capítulos para uma história social da propriedade da terra na América Portuguesa. O caso dos aforamentos na Fazenda de Santa Cruz (Capitania do Rio de Janeiro, 1600-1870)". UFF, Niterói, 2018. Páginas 152 à 156.

Legenda e Fonte da Imagem: Carvalho, Delgado. Chorographia do districto federal. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1926. Retirada da página 152 da tese da autora, Manoela da Silva Pedroza.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

A Abolição da Escravidão em Santa Cruz

João Corrêa


O dia 13 de maio de 1888 é uma data emblemática para a sociedade brasileira. É um marco na história do Brasil, na qual o país deixava de ser uma nação escravocrata.  Mas para os escravos da Imperial Fazenda de Santa Cruz, este processo histórico foi um pouco diferente.

Os escravos da Fazenda de Santa Cruz foram libertos pela Lei do Ventre Livre de 1871. Esta lei além de conceder a liberdade aos filhos de escravas que nascessem a partir daquela data, também abrangia os escravos da nação.

Escravo da nação era o nome dado aos escravos que estavam em usufruto do império brasileiro. Estes escravos eram empregados em diversos estabelecimentos públicos do império, na qual eram utilizados em serviços de diversas magnitudes.  Como exemplo podemos citar órgãos como: Fábrica de pólvora; Arsenal de Marinha; Fazenda Piauí e principalmente a Imperial Fazenda de Santa Cruz, onde tinha o maior quantitativo de escravos.

A Fazenda de Santa Cruz nos seus momentos áureos chegou a ter uma escravaria de 3 mil escravos. No ano de 1871, segundo documentação pesquisada, foram libertos pelo império brasileiro em torno de 1200 escravos. Após este período a vida dos libertos se tornou muito difícil, para aqueles que tentaram de alguma forma permanecer na sede da Fazenda ou nos arredores.

Verificamos que muitos libertos se dirigiram para outras regiões, mas segundo as documentações pesquisadas não sabemos os destinos destes. Os que aqui permaneceram, sofreram com as diversas retaliações vindas dos administradores da Fazenda, que em certa medida dificultava a vida dos libertos nas imediações de santa Cruz.  Constatamos que os libertos sofreram com a concorrência da mão de obra imigrante que estavam chegando para região, isso se mostra evidente nos jornais da época, na qual mostra conflitos envolvendo libertos, imigrantes e moradores locais.

Percebe-se que os libertos somem dos registros oficiais, na qual se torna muito difícil buscar encontrar indícios deles e como eles buscaram formas de sobrevivência para esta nova fase de suas vidas. Neste hiato de tempo entre 1871 a 1891, encontramos poucas informações sobre a atuação dos libertos, somente informações que versavam sobre os conflitos entre libertos e demais moradores. No ano de 1891, encontramos uma ordem de despejo por parte do ministro da Economia, na qual determinava a expulsão dos libertos das antigas senzalas da Fazenda, segundo matéria do jornal ainda residiam em Santa Cruz em torno de 600 libertos.

Vale apontar que os libertos de Santa Cruz ficaram à mercê da sociedade da época, ficaram sem terras, emprego, moradia, sofrendo retaliações pela administração da Fazenda, concorrência na procura de um emprego e principalmente a expansão urbana que Santa Cruz estava sofrendo, não dando espaço para os libertos permanecerem no local que suas gerações viveram por mais de 300 anos.

A situação dos libertos de Santa Cruz é um tema que precisa ser mais aprofundado para compreendermos o destino destas famílias e também para entendermos como se deu este processo pós abolição na região. Mas até agora podemos concluir que de modo algum foi um processo benéfico para os negros libertos.

João Batista Corrêa é Historiador.
Graduado e Mestre em História pela Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO), é autor do livro "Escravidão e Liberdade na Imperial Fazenda de Santa Cruz (1856-1891)", que pode ser adquirido pela Editora Multifoco no link:

Contatos:


E-mail: jobacorrea@gmail.com

Legenda e Fonte da Imagem: 
Escravos negros trabalhando numa plantação de café (c. 1860-1888), disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/amp/brasil-44091474 , acesso em 13/05/2019.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

O abandono da Ponte dos Jesuítas


Reportagem sobre o abandono da Ponte dos Jesuítas exibida no dia 06/05/2019. Exibida no  Programa Bom Dia Rio. Esperamos que as devidas providências sejam tomadas.

domingo, 21 de abril de 2019

Funcionamento e bens da Fazenda dos Jesuítas



Para a época em que os jesuítas, ocuparam sua fazenda, tudo ainda era muito difícil, é preciso que se entenda. Pois quase tudo que se usava, vinha da Europa de encomenda.

Pelo que os jesuítas conseguiram, Em sua fazenda desenvolver, Revela a grande capacidade, Que eles tinham em resolver, Os seus problemas básicos, Para garantir um farto viver.

A Fazenda dos Jesuítas, Era um complexo agrícola-industrial, Ali eles faziam de tudo, Era um movimento colossal, Da Olaria ao Estaleiro, Do plantio a criação do animal.

Vamos neste livreto descrever, Fatos na verdade reais, Ocorridos no ano de 1742, E que estão nos anais, Um inventário então feito, Ainda em épocas coloniais.

Em 1658 as pequenas povoações, Que na Fazenda iam surgindo, Eram chamadas de Currais, E iam então evoluindo, Pagando um foro anual, Coisa que todos iam assumindo.

Nessa época na Fazenda, Existiam 18 Currais, Além do Curral dos Índios, Todos com vida normais, Alguns ainda hoje tem, Os nomes originais.

Curral Falso, Todos os Santos, São João, São Luiz, São Barnabé, Cruz, Casa, São Marcos, São Paulo, São Boaventura, , São Francisco, São José, São Estevam, São Inácio, São Pedro, Nossa Senhora, os Currais tinham muita fé.

O foro anual por Curral, Para o dos Índios 3 Galinhas, Para os demais eram quatro, Contanto que fossem gordinhas, Só depois passou a Seis aves, Isso após muitas ladainhas.

Esse foro era uma compensação, Por lavrarem em terras da Fazenda, Pela criação do gado, Por usarem lenha e moenda, Era uma insignificância, Para quem já tinha alguma renda.

Depois o foro foi mudado, para quatro dobras anuais, A dobra era uma moeda portuguesa, Ainda dos tempos coloniais, Que passou a substituir as Galinhas, Nos pagamentos normais.

Em 1742, a Fazenda de Santa Cruz, Fez um inventário geral, De todos os seus bens, De forma muito real, Que hoje nos dá ideia clara, Do seu grande potencial.

No balanço de animais encontrava-se, 1658 cabeças de bovinos, 1140 cabeças ao todo, Era a quantidade de equinos, Apenas duzentas cabeças, Era a quantidade de ovinos.

Existiam 700 servos, Para os serviços gerais, Todos tinham tarefas, Algumas até especiais, Primavam pela organização, Embora com métodos feudais.

Alguns eram responsáveis, Pelo pastoreio dos animais, Outros amansadores de burros, Para valorização comercial, Outros nas oficinas da Fazenda, Para os trabalhos especiais.

O Jesuíta estudava com cuidado, De cada servo sua vocação, Para fazer o aproveitamento, Com bastante planificação, Para tirar de cada um, O máximo de produção.

As mulheres com seu trabalho, É que garantiam a fartura, Lidavam apenas com a terra, Desenvolvendo a agricultura, Na Fazenda colhia-se de tudo, De forma muito segura.

A Fazenda de Santa Cruz, Era uma perfeita povoação, Pois alí, havia de tudo, Dando a todos satisfação, Era uma vida civilizada, Obedecendo boa planificação.

Para a época era a Fazenda, Um estabelecimento moderno, Complexo Agrícola Industrial, Com grande movimento interno, Enfrentando as estações do ano, Da Primavera ao inverno.

Tinha uma Bela Igreja, Grande residência sobradada, Hospedaria e um Hospital, Uma escola para a gurizada, Também para catequese, Com educação bem formada.

Na Fazenda tinha Cadeia, Para a pessoa abusada, Tinha várias oficinas, Também a de prata lavrada, Ferraria e Tecelagem, E Carpintaria bem montada.

Tinha também uma Olaria, Assim como a casa de Cal, Também a casa de Farinha, Uma coisa primordial, Casa da descasca de Arroz, Tudo com base comercial.

Existia a casa do Cortume, A Engenhoca de Aguardente, A usina de Açúcar em construção, Com maquinário já assente, E um indispensável estaleiro, Com um trabalho inteligente.

No Estaleiro se fabricava, Canoas para navegação, Também grandes Sumaças, Feitas alí com precisão, Todas servindo a Fazenda, No transporte da produção.

Existiam Roças de Mandioca, De milho, também de Feijão, Plantava-se muita verdura, Muito Arroz, Cana e Algodão, Alí encontrava-se de tudo, Era bem variada a plantação.

A Igreja tinha três Altares, Ela e a Sacristia eram azulejadas, A Pia Batismal de Pedra do Reino, Obras muito bem acabadas, Na Sacristia uma linda Arca, Com muitas coisas guardadas.

A Arca tinha 42 Gavetas, Era uma peça indispensável, Guardavam nelas os Ornamentos, De toda vida sociável, Paramentos, Toalhas etc, Era uma peça notável.

A Igreja era Completa, Com Retábulo e Painéis, Imagens, e lindo Presépio, Livros e muitos papéis, Nada de ouro, só muita Prata, E muita devoção dos fiéis.

O Hospital que existia, Para atender a servidão, Era de paredes de tijolos, Com uma vasta repartição, Com cobertura de telhas, A pintura era de caiação.

Para os Padres existia, Uma enfermaria privativa, Para qualquer necessidade, Numa doença relativa, Onde o enfermo permanecia, Durante a fase corretiva.

Fora dessa enfermaria, Havia duas salas separadas, Uma para cada sexo, Onde os enfermos eram tratados, Anexo havia pavilhões, Para epidemias mais ousadas.

Tinham alí uma Biblioteca, Com livros especiais, Sobre Medicina e Cirurgia, Para a época muito atuais, Nos quais eles se apoiavam, Para emergências normais.

A Festa titular da Igreja, Assim como do lugar, Era a Exaltação da Santa Cruz, Festa de fato bem popular, A todo 14 de Setembro, Ela tinha que se realizar.

Para finalizar a festa, Era feita linda procissão, Com todas as Confrarias, Que disso faziam questão, Com o Hino, Te-Deu Landa-mus, Encerrava-se a programação.

Os Jesuítas em sua modéstia, E pelo princípio de economia, Em 1717, foram criticados, Pelo Conde Assumar e companhia, Por ter passado pela Fazenda, E não ter encontrado mordomia.

Não é que os Jesuítas, Não soubessem as visitas honrar, Eram bons e inteligentes, Mas todos viviam a trabalhar, Não sabiam era fazer distinções, A quem os estava a visitar.

Suas louças não eram ricas, Eram comuns e vidradas, De Estanho, Latão ou Cobre, Elas eram fabricadas, E nas visitas e festividades, Elas eram sempre usadas.

Com o tempo os Jesuítas, Adquiriram da China, Um aparelho de Chá e Chocolate, Para eles coisa granfina, E da Índia uma Baixela, Matizada de Ouro Fino.

E assim os Jesuítas, Procuraram se equipar, Para atender visitas ilustres, Quando os fosse visitar, Sem fugirem a seus princípios, Os quais tudo faziam para preservar.

As grandes obras dos Jesuítas, De Engenharia Hidráulica, Para aquela época secular, Era mesmo coisa fantástica, Dando fim as inundações, Com a técnica programática.

Em sua Fazenda os Jesuítas, Deram exemplos de muito amor, No trabalho com a terra, Onde houve muito explendor, Também nos métodos de catequese, E como o grande construtor.

Fonte do texto: "Funcionamento e Bens da Fazenda dos Jesuítas em Santa Cruz". GONÇALVES, José Roque Mareira, Río de Janeiro, 1989. Livro de Literatura de Cordel baseado na obra de FREITAS, Benedicto de. Volumes I e II, Rio de Janeiro, 1985-1987. In Biblioteca do NOPH.

Texto editado e postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Eram os Jesuítas de Santa Cruz "homens à frente do seu tempo"?



Eram os Jesuítas de Santa Cruz "homens à frente do seu tempo"?

Não. Apesar de certa historiografia ter evidenciado com justiça a grande capacidade produtiva jesuítica na América, inclusive em Santa Cruz, fica evidente pela análise documental a adequação dessa produção às necessidades e possibilidades de seu tempo.

Dentre os diversos aspectos que podem ser verificados na administração desses religiosos à frente da Fazenda de Santa Cruz, não foram visualizados avanços técnicos e tecnológicos diferentes daqueles da época.

Principalmente, é notoria a solução tradicional para o problema crônico de escassez de mão-de-obra da Colônia, qual seja, um sofisticado sistema de escravização pura e simples do negro africano que envolvia coerção e negociação, sendo inclusive usado como modelo por administrações posteriores, e a utilização da mão-de-obra indígena, dentre outras formas de trabalho compulsório, elementos totalmentes coerentes com a lógica do Antigo Regime português nestas terras.

Assim, os jesuítas de Santa Cruz, em nossa interpretação, eram "homens de seu tempo"; não, como querem alguns, mais abertos às novidades técnicas. Na verdade, pensamos melhor vê-los como abertos à realidade e às possibilidades produtivas dela.


Fonte: Cf. MENESES, J. N. C. Se perpetue a Companhia nessas partes: materialidade da Fazenda de Santa Cruz no tempo da expulsão dos jesuítas. In: ENGEMANN, C. & AMANTINO, M. Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da Coroa. Rio de Janeiro - RJ: EDUERJ, 2013, p. 93, editado.

Legenda da Imagem: Vista Lateral da Ponte dos Jesuítas. Disponível em

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A Primeira Rebelião de Escravos em Santa Cruz



Em maio de 1796, ocorreu a primeira revolta dos escravos de Santa Cruz de que se tem notícia.

Durante muitos anos, a Fazenda de Santa Cruz foi símbolo do poder dos jesuítas em terras fluminenses, mas tornou-se também marca de uma administração competente e um espaço de conhecimento agrário e hidráulico por parte deles.

No que diz respeito ao controle da extensa escravaria que a Fazenda possuía, a documentação da época dá conta de que, no, tempo da gestão dos padres, os escravos da fazenda viviam sossegados e sob o controle de seus senhores religiosos.

De fato, num levantamento realizado em 1759, realmente não aparecem escravos identificados como fugidos ou ausentes sem explicação.

Mas com o passar do tempo e substituição dos padres por administradores não religiosos, a situação dos escravos mudou bastante.

Foi assim que, em 1796, Manoel Martins do Couto Reis, um de seus mais importantes administradores, deu conta ao rei de que os escravos estavam insubmissos, recusavam-se ao trabalho, fugiam para os matos, roubavam a fazenda e outros senhores locais; haviam se transformado em "insuportáveis pelos seua terrebilíssimos desmandos".

Ainda segundo Couto Reis, depois de passarem meses "vadiando" nas matas, voltavam doentes e apadrinhados ou capturados pelos capitães do mato para "curar moléstias no hospital e acrescentar despesas".

Assim, a solução proposta pelo administrador foi vender os incorrigíveis para bem longe e, com o dinheiro arrecadado, comprar africanos, "trabalhadores mais robustos, mais sujeitos, mais fiéis e capazes de uma doutrina nova".

Contudo a situação não melhorou e, em maio do mesmo ano, os escravos da fazenda se rebelaram.

Para reprimir os revoltosos, o vice-rei Conde de Azambuja, por meio de uma portaria, autorizou a criação de uma milícia para atacar os escravos, com ordem, inclusive, de matar os que resistissem, debelando, assim, a rebelião.

*Obs: palavras entre "aspas" representam o vocabulário e juízo de valor da época. Não representam a opinião do NOPH.

Fonte do texto: AMANTINO, M. & COUTO, R. De "curral dos padres" à gigantesca Fazenda de Santa Cruz. In: ENGEMANN, C. & AMANTINO, M. Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da Coroa. Rio de Janeiro - RJ: EDUERJ, 2013, p. 39-40, editado.

Legenda e Fonte da Imagem: Revolta Escrava não identificada. Disponível em:
http://ametamorfose1984.blogspot.com/2014/04/rebeliao-escrava-no-brasil-historia-do.html?m=1 , acesso em 10/04/2019

sábado, 6 de abril de 2019

Sepetiba fazia parte da Fazenda Real, a Joia da Capitania



Banhado pela baía de mesmo nome, o bairro de Sepetiba, no extremo oeste do Rio de Janeiro, possui cerca de 40 mil habitantes e um dos piores índices de desenvolvimento social – IDS – do município, segundo o Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. O IDS leva em conta o acesso dos moradores a saneamento básico, qualidade habitacional, grau de escolaridade e renda.

Lugar privilegiado pela natureza, de beleza ímpar, separado do Oceano Atlântico pela delgada Restinga da Marambaia, sofre atualmente - tanto pelo aspecto social quanto pelo econômico - com a poluição de suas praias, já que a pesca e o turismo, atividades básicas de sobrevivência local, estão comprometidas.

O bairro possui grande relevância histórica. Estudos de pesquisadores da Uerj e da UFRRJ atestam que há registros pré-históricos de ocupação indígena no litoral da Baía de Sepetiba. Foram encontrados 34 sambaquis, ou seja, depósitos de materiais orgânicos e calcários empilhados ao longo do tempo, que serviam, entre outras finalidades, para identificar o grupo indígena que habitava a região. Os sambaquis continham conchas, lâminas de quartzo, pedras de amolar, machado e fragmentos de ossos.

Os índios tamoios deram nome à localidade ao notarem que havia muito sapê na região, e a chamaram de çape-tyba, ou sítio dos sapês – vegetação nativa. A palavra tupi foi aportuguesada pelos jesuítas, tornando-se Sepetiba.

Companhia de Jesus

No período colonial, Sepetiba fazia parte da gigantesca Fazenda de Santa Cruz, pertencente aos jesuítas e conhecida como a Joia da Capitania. A propriedade, de 1.167 km², estendia-se até Vassouras. Havia pecuária, produção de açúcar, arroz, feijão, mandioca, anil, fumo, algodão, legumes, frutas, cacau e café, entre outros. E também manufaturas: olaria, ferraria, carpintaria, serraria, fábricas de cerâmica, de canoas, de móveis e de artigos de couro, estaleiro, ourivesaria, prateiros, tecelagem, forno de cal, casa de farinha, engenhos. A propriedade ainda possuía hospital, botica (espécie de farmácia), senzalas e armazéns. Ou seja, era um grande centro agrário-fabril, autônomo, cujo excedente de produtos era escoado tanto em direção à corte quanto para outros engenhos próximos.

A porção da fazenda onde hoje se situa o bairro de Sepetiba, junto à faixa litorânea, era dividida em arrendamentos. Em 1729, contava-se 26 arrendatários. Entre eles, os índios, que pagavam a título de foro, anualmente, três galinhas, e os demais foreiros, quatro. Posteriormente, esse valor foi substituído por meia dobra (antiga moeda portuguesa). Deste modo, os jesuítas garantiam o controle da região do porto que havia em frente à Ilha da Madeira.

Do porto da Fazenda de Santa Cruz seguiam víveres para a Companhia de Jesus – 500 bois anuais, verduras, legumes e açúcar –, cujo ancoradouro ficava na Praia Dom Manuel (que não existe mais), no canto da Praça Quinze.

Palácio de veraneio Real

Em 31 de agosto de 1808, o então príncipe regente Dom João, por meio de decreto, subordinou a administração da Fazenda de Santa Cruz à Casa Real. A partir daí, a residência dos jesuítas transformou-se em palácio de veraneio real, houve melhoramentos na estrada que a ligava à Quinta da Boa Vista e foram construídas as pontes de Piraquara, Bangu e Cabuçu.

Ergueram-se três fortes equipados com baterias de canhões para garantir a segurança da família real: o de São Pedro (guardava as praias de Sepetiba e as ilhas da Pescaria e do Tatu), o de São Paulo (praias de Sepetiba e Piahy) e o de São Leopoldo (no Morro de Sepetiba). Nenhum deles sobreviveu ao tempo.

Em 26 de julho de 1813, Dom João VI, novamente por meio de decreto, fez de Sepetiba um povoado, delimitando sua área e doando as terras aos pescadores e lavradores, inicialmente, formando oito sítios. Durante a República, chegaram habitantes de outras localidades para se fixar nas praias da região, em casas rústicas de telhados de sapê. Desde então, a principal atividade econômica do local é a pesca.

Sepetiba hoje

Atualmente, os pescadores precisam se afastar cada vez mais do litoral para garantir o produto, pois as praias do bairro – Sepetiba (2,6 km), do Cardo (pouco mais de 2 km) e de Dona Luiza ou do Recôncavo (1km) – estão poluídas, justamente por estarem localizadas no fundo da baía, a parte mais assoreada. E não é qualquer tipo de sedimento. Segundo estudo de Julio Cesar Wasserman, coordenador da Rede de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da UFF, há elevada concentração de zinco e cádmio, metais pesados, potencialmente maléficos à saúde humana.

A poluição da Baía de Sepetiba está diretamente relacionada com a água dos rios que deságuam nela, como é o caso do Rio Guandu, trazendo em grande escala esgotos sanitários, resíduos sólidos e despejos industriais sem tratamento adequado.

O Movimento Ecomuseu de Sepetiba busca unir a comunidade local para resistir à degradação do bairro frente às dificuldades. Além da poluição, os moradores convivem com poucas linhas de ônibus, que funcionam em horários espaçados. O transporte é feito predominantemente por vans e kombis, que seguem em direção a Santa Cruz, Campo Grande e Bangu.

Em relação a saúde e educação, a Rua José Fernandes é fundamental, pois concentra o pronto-socorro, a Casa de Saúde República da Croácia, o posto de saúde e dois cieps: Deputado Ulysses Guimarães e Ministro Marcos Freire. Saindo dali, o bairro possui também quatro escolas municipais: Nair da Fonseca, Nelson Romero, Felipe Camarão e Júlio Cesário de Melo, além de um colégio estadual: Carlos Arnoldo Abruzzini da Fonseca.

O comércio é formado por padarias, farmácias, minimercados, um único supermercado, algumas academias de ginástica, muitos quiosques e bares. São destaques a Capela de São Pedro, de 1895, o Sepetiba Iate Clube, fundado em 1947, e o coreto de ferro com base de alvenaria da Praça Washington Luiz, tombado desde 1985, que serviu de cenário para a novela O Bem-Amado, de Dias Gomes, local onde o prefeito Odorico Paraguaçu, interpretado por Paulo Gracindo, fazia seus discursos.

Texto de Larissa Altoé

Originalmente postado na página multirio.rj.gov.br

Postado nesta página por Adinalzir Pereira Lamego - Professor e Pesquisador do NOPH